O que dizem os indicadores e onde estão os riscos
Imagine uma empresa portuguesa que está a estudar a possibilidade de abrir uma operação em Cabo Verde. O mercado parece interessante, a língua não constitui uma barreira e a ligação económica com Portugal tem décadas de história. Mas há perguntas que não desaparecem com uma apresentação comercial. Como funciona o sistema financeiro? A moeda é estável? As regras podem mudar de um dia para o outro? E, sobretudo, o investimento pode crescer sem ficar dependente de factores que a empresa não controla?
Cabo Verde surge frequentemente entre os países africanos com melhores indicadores de estabilidade política e institucional. Em 2025, a agência de avaliação de risco Credendo melhorou a classificação do país para a categoria 4/7 no risco político de médio e longo prazo, depois de o ter colocado na categoria 5/7 em 2024.
A agência justificou a melhoria com a evolução económica e financeira, o crescimento do turismo, o investimento estrangeiro e as remessas dos emigrantes. Destacou também a força das instituições e a estabilidade política do arquipélago.
A classificação não significa que Cabo Verde esteja livre de problemas. Significa que, na avaliação da Credendo, o perfil de risco político melhorou. E esta distinção interessa a quem está a ponderar investir.
Uma democracia com continuidade institucional
A estabilidade política é um dos factores que distingue Cabo Verde de vários mercados africanos.
Desde a introdução do multipartidarismo, em 1990, o país tem mantido um percurso de alternância democrática e continuidade das instituições. As mudanças de Governo têm ocorrido através de processos eleitorais, sem rupturas institucionais que tenham comprometido o funcionamento do Estado.
O Departamento de Estado norte-americano, no seu relatório sobre o clima de investimento de 2024, descreve o ambiente político cabo-verdiano como caracterizado pela estabilidade, governação democrática e continuidade das políticas públicas.
Para uma empresa estrangeira, esta previsibilidade tem consequências práticas. Contratos, enquadramento legal e relações institucionais podem ser planeados num horizonte mais longo, sem que cada mudança política represente necessariamente uma alteração das regras económicas.
Mas há uma diferença entre estabilidade institucional e facilidade de fazer negócios. A primeira não garante automaticamente que os processos administrativos sejam rápidos, que os licenciamentos decorram sem atrasos ou que todos os investidores tenham o mesmo nível de acompanhamento.
O escudo cabo-verdiano e a ligação ao euro
Há outro factor que merece atenção, sobretudo para empresas portuguesas e europeias.
O escudo cabo-verdiano está ligado ao euro através de um regime de paridade fixa. O Acordo de Cooperação Cambial entre Portugal e Cabo Verde foi assinado em Março de 1998. Desde Janeiro de 1999, a taxa está fixada em 1 euro por 110,265 escudos cabo-verdianos.
Este mecanismo proporciona uma referência cambial previsível e reduz significativamente a exposição às flutuações entre as duas moedas.
Para uma empresa portuguesa que recebe receitas em euros, investe em Cabo Verde ou mantém relações comerciais regulares com parceiros locais, esta ligação facilita o planeamento financeiro.
Contudo, convém não confundir uma taxa de câmbio fixa com a eliminação de todos os riscos financeiros. A manutenção da paridade depende da capacidade do país para sustentar o regime cambial, das reservas externas e da disciplina das políticas económicas. Também podem existir custos bancários, limitações operacionais e riscos associados à transferência internacional de fundos.
Em Dezembro de 2025, o Banco de Cabo Verde anunciou que as reservas externas líquidas tinham ultrapassado, pela primeira vez, os mil milhões de euros. A 11 de Dezembro, atingiram 1.019,8 milhões de euros.
O banco central considerou o nível confortável e adequado para preservar a paridade fixa com o euro. É um indicador relevante, embora deva ser acompanhado ao longo do tempo, e não apenas observado numa data isolada.
Uma economia em crescimento, mas ainda muito dependente do turismo
Os indicadores económicos de 2025 também ajudam a compreender a posição de Cabo Verde.
Segundo a actualização económica publicada pelo Banco Mundial em Julho de 2026, o PIB real cresceu 6,3% em 2025. O país registou ainda um excedente orçamental de 1% do PIB, o primeiro desde 2007, enquanto a dívida pública do Governo central desceu para 100,7% do PIB.
A inflação manteve-se relativamente contida. O crescimento foi impulsionado sobretudo pelo turismo, pelo consumo privado e pelo aumento da actividade nos serviços.
O Banco Mundial prevê, contudo, um abrandamento do crescimento para 4,8% em 2026, antes de uma estabilização em torno de 5,1% no médio prazo.
É aqui que surge uma das principais vulnerabilidades da economia cabo-verdiana.
O turismo tem um peso muito significativo na actividade económica, no emprego e nas receitas externas. O problema não está apenas na dimensão do sector, mas também na concentração geográfica e na dependência dos mercados europeus.
Sal e Boa Vista concentram uma parte importante da actividade turística, com um modelo de negócio muito assente nos grandes empreendimentos hoteleiros e no regime de tudo incluído.
Segundo o Banco Mundial, cerca de 93% das chegadas turísticas têm origem na Europa.
Isto significa que uma quebra na procura europeia, uma crise internacional ou uma alteração nos hábitos de viagem pode afectar directamente a economia cabo-verdiana.
Para uma empresa que pretenda entrar no mercado, a questão é simples. Investir no turismo pode representar uma oportunidade, mas construir um negócio excessivamente dependente de um único sector ou de um único mercado emissor aumenta a exposição a choques externos.
A dívida pública continua a ser uma vulnerabilidade
O crescimento económico e a melhoria das contas públicas não eliminaram o problema da dívida.
Apesar da descida registada nos últimos anos, a dívida pública continua próxima de 100% do PIB. O Banco Mundial chama a atenção para outro indicador que merece ser acompanhado. O serviço da dívida absorveu 34,2% das receitas do Estado em 2025. Quando se incluem as obrigações das empresas públicas, essa proporção sobe para 46,3%.
Esta situação limita a margem financeira do Estado e pode condicionar a capacidade de investimento público em infraestruturas, transportes e serviços.
As empresas públicas representam também uma fonte de risco fiscal. Quando uma empresa estatal acumula dificuldades financeiras, o impacto pode ultrapassar as suas próprias contas e chegar ao orçamento público.
Não significa que exista uma crise financeira iminente. Significa que a redução da dívida e a gestão das responsabilidades das empresas públicas continuam a ser questões centrais para a sustentabilidade económica do país.
O problema que não aparece nos rankings: ligar as ilhas
Há uma dificuldade que merece particular atenção de quem pretende desenvolver uma actividade empresarial fora dos principais centros turísticos.
Cabo Verde é um arquipélago. São dez ilhas, com mercados de dimensão reduzida e diferentes condições de acesso a transportes, serviços e infraestruturas.
A ligação entre ilhas, por via marítima e aérea, continua a representar um constrangimento à actividade económica.
O Banco Mundial identifica a fraca conectividade interilhas como uma das principais limitações ao crescimento do sector privado e à diversificação económica.
Para uma empresa, isto traduz-se em questões muito concretas. Transportar mercadorias pode custar mais do que o inicialmente previsto. A distribuição pode exigir prazos superiores. A deslocação de trabalhadores e fornecedores pode complicar a gestão diária.
Uma empresa instalada na Praia não enfrenta necessariamente os mesmos custos operacionais de outra que pretenda desenvolver uma actividade em São Nicolau ou no Fogo.
É uma realidade que deve entrar no plano de negócios desde o início. Não basta calcular o custo de instalação. É preciso perceber quanto custa manter a operação a funcionar.
O enquadramento legal e os incentivos ao investimento
Cabo Verde dispõe de mecanismos destinados a facilitar o investimento estrangeiro.
A Cabo Verde TradeInvest funciona como estrutura de promoção e facilitação do investimento, disponibilizando um serviço de atendimento centralizado para apoiar os investidores nos diferentes procedimentos administrativos.
O relatório do Departamento de Estado norte-americano de 2024 reconhece a existência deste mecanismo e destaca os incentivos disponíveis em sectores como o turismo, as energias renováveis e as tecnologias de informação e comunicação.
O enquadramento fiscal também sofreu alterações. A taxa geral do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas passou de 21% para 20%, com efeitos a partir de Janeiro de 2026.
Existem ainda benefícios fiscais associados a determinados investimentos e actividades, cuja aplicação depende das condições previstas na legislação.
Mas uma coisa é existir um regime de incentivos. Outra é conseguir reunir os requisitos, obter as autorizações necessárias e concretizar o projecto dentro dos prazos previstos.
O próprio relatório norte-americano identifica limitações no acompanhamento posterior ao investimento, sobretudo para operadores de menor dimensão. Também chama a atenção para a necessidade de avaliar cuidadosamente os projectos, os parceiros locais e as condições de execução.
Uma fonte não é uma verdade, é uma pista. E, no investimento, uma apresentação comercial também não substitui a verificação documental.
Então, para quem faz sentido investir em Cabo Verde?
Para uma PME portuguesa, a ligação cambial ao euro, a proximidade institucional e a continuidade democrática são factores favoráveis. Mas a empresa deve avaliar os custos de importação, a dimensão efectiva do mercado e os procedimentos administrativos antes de avançar.
Para os investidores da diáspora cabo-verdiana, existe uma vantagem adicional. O conhecimento da realidade local, as relações familiares e profissionais e a experiência acumulada entre diferentes mercados podem facilitar a identificação de oportunidades. Ainda assim, a proximidade pessoal não dispensa contratos, análise financeira e parceiros com capacidade comprovada de execução.
Para quem procura investimentos de longo prazo, sectores como as energias renováveis, a economia azul e os serviços digitais merecem atenção. São áreas que podem contribuir para diversificar a economia e reduzir a dependência do turismo. Mas exigem infraestruturas, competências técnicas e condições operacionais que nem sempre estão disponíveis de forma uniforme em todas as ilhas.
Já para investidores interessados exclusivamente em aplicações financeiras, é necessário considerar a dimensão reduzida do mercado de capitais cabo-verdiano e as limitações de liquidez.
Cabo Verde é estável, mas não é um investimento sem risco
Os indicadores permitem afirmar que Cabo Verde apresenta um perfil de estabilidade política e institucional favorável quando comparado com muitos outros mercados africanos. A melhoria da classificação da Credendo, a continuidade democrática, a paridade cambial com o euro e a evolução das contas públicas sustentam essa leitura.
Mas há outra parte da história.
A dívida pública permanece elevada, a economia depende fortemente do turismo, as ligações entre ilhas continuam a limitar a actividade empresarial e os custos associados à importação de bens e energia condicionam a competitividade de muitas empresas.
Também a exposição às alterações climáticas merece atenção. Num pequeno Estado insular, as secas, a escassez de água e os fenómenos meteorológicos extremos podem ter consequências directas sobre a agricultura, o turismo, as infraestruturas e os custos de funcionamento das empresas.
A resposta à pergunta inicial é, portanto, afirmativa, mas exige contexto.
Cabo Verde oferece um enquadramento político, institucional e cambial que merece ser considerado por quem procura oportunidades de investimento em África. O risco que permanece não é exclusivamente político. É também económico, logístico, financeiro e operacional.
Para um investidor, a diferença está em perceber onde termina a estabilidade das instituições e onde começam os desafios concretos de fazer negócio.