Cabo Verde quer ser digital. Estão as PME preparadas?
Uma empresa cabo-verdiana pode ter clientes interessados no estrangeiro, produtos com potencial para chegar a novos mercados e uma equipa capaz de prestar serviços à distância. Mas, se não conseguir ser encontrada online, aceitar pagamentos digitais ou responder com rapidez a um pedido de informação, parte dessa oportunidade pode ficar pelo caminho.
A transformação digital das PME em Cabo Verde está ligada a uma ambição mais ampla. O país quer diversificar a economia, modernizar os serviços e afirmar-se como uma plataforma regional de inovação e tecnologia. A estratégia está em marcha, mas há uma questão que merece atenção: as pequenas empresas têm condições para acompanhar esta mudança?
Os dados disponíveis mostram avanços nas infraestruturas e na formação, mas também apontam limitações na utilização de ferramentas digitais pelas empresas. O turismo, um dos setores mais relevantes da economia cabo-verdiana, oferece um exemplo concreto dessa distância.
Uma estratégia nacional que precisa de chegar às empresas
A digitalização faz parte da agenda de desenvolvimento de Cabo Verde há vários anos. O país tem investido nas tecnologias de informação e comunicação, na modernização dos serviços públicos e na formação de competências digitais.
Em outubro de 2024, o Banco Mundial referia que o Governo pretendia digitalizar 60% dos serviços públicos até 2026, ultrapassando os 80% até 2030. O mesmo artigo destacava o programa Weblabs, que tinha inscrito quase 14 mil estudantes em áreas como desenvolvimento web, robótica e marketing digital.
São iniciativas relevantes. Serviços públicos digitais podem reduzir deslocações e burocracia, enquanto a formação tecnológica pode preparar profissionais para novas atividades económicas. Mas a modernização do Estado e a digitalização das empresas não são a mesma coisa.
Uma PME precisa de resolver problemas muito concretos. Como recebe encomendas? Como organiza os clientes? Como apresenta os seus produtos? Como recebe pagamentos? Como protege a informação que guarda? A tecnologia pode ajudar, desde que responda a necessidades reais e que a empresa saiba utilizá-la.
A ambição de criar um hub digital regional só terá um impacto mais amplo se também abrir oportunidades para os negócios de menor dimensão.
Ter acesso à Internet não significa saber utilizá-la
Uma avaliação da UNESCO sobre o desenvolvimento da Internet em Cabo Verde, publicada em outubro de 2024, identificou desafios de acesso e inclusão digital. O estudo foi conduzido entre agosto e outubro de 2022, com base em 253 indicadores.
Segundo a avaliação, 38,1% da população não utilizava a Internet. A publicação refere ainda que, em 2023, 69,3% dos utilizadores da Internet usavam pelo menos uma plataforma de redes sociais.
Estes números têm datas de referência distintas e não devem ser tratados como um retrato atual de todas as ilhas. Também não medem diretamente a utilização de tecnologia pelas empresas. Ainda assim, ajudam a enquadrar uma questão: a ligação à Internet é apenas o primeiro passo.
Uma empresa pode ter uma página nas redes sociais e continuar sem um canal próprio para apresentar os seus serviços, organizar pedidos ou manter uma relação regular com os clientes. Pode receber mensagens, mas não dispor de um sistema para acompanhar as encomendas. Pode divulgar um produto, mas não conseguir concluir uma venda online.
Um website, um endereço de e-mail profissional ou uma ferramenta simples de gestão podem ser suficientes para começar a melhorar estes processos. Não existe uma solução única para todas as empresas. O investimento deve acompanhar a dimensão do negócio e os problemas que pretende resolver.
O turismo mostra uma parte do desafio
O turismo é um dos setores onde a digitalização das empresas cabo-verdianas pode ter efeitos mais visíveis. A presença online, as reservas e os pagamentos digitais influenciam a forma como os visitantes descobrem e contratam serviços.
O Diagnóstico do Setor Privado de Cabo Verde, publicado pelo Banco Mundial e pela IFC em março de 2024, identificou uma utilização limitada de plataformas digitais nas empresas turísticas analisadas. Segundo o relatório, 40% não disponibilizavam os seus produtos em plataformas de terceiros e 30% não ofereciam reservas online nos próprios websites.
Os valores referem-se às empresas turísticas consideradas no diagnóstico, não ao conjunto das PME cabo-verdianas. O relatório identifica também limitações na utilização de ferramentas de gestão de clientes, inventário, finanças e contabilidade, bem como dificuldades relacionadas com o custo e a acessibilidade dos serviços digitais.
O exemplo ajuda a perceber o que está em causa. Um pequeno operador turístico pode conhecer bem a sua ilha e oferecer experiências diferenciadas. Se um potencial cliente não conseguir encontrar informação sobre essas experiências, consultar preços ou fazer uma reserva, a empresa pode perder oportunidades de negócio.
As plataformas internacionais facilitam o acesso a mercados, mas também podem criar dependência. Ter um canal próprio de comunicação e reservas permite à empresa controlar melhor a informação que apresenta e a relação que mantém com os clientes. Isso não significa abandonar os intermediários. Significa evitar que sejam a única forma de chegar ao mercado.
A digitalização pode ajudar a melhorar a oferta turística cabo-verdiana e a integrar negócios locais na cadeia de valor. Não resolve, porém, outros obstáculos, como os custos de transporte entre ilhas ou a concentração da atividade em determinados destinos.
Competências, investimento e organização
Para muitas pequenas empresas, a primeira dificuldade pode ser saber por onde começar.
A escolha de ferramentas, a gestão de um website, a segurança dos dados ou a utilização de sistemas de pagamento exigem conhecimentos que nem sempre estão disponíveis dentro da empresa. A formação é, por isso, uma parte importante da transformação digital.
O programa Weblabs, referido pelo Banco Mundial em 2024, procurava desenvolver competências tecnológicas entre os jovens. Mas a capacitação não deve ficar limitada a quem ainda está a estudar. Os empresários e trabalhadores que já estão no mercado também precisam de apoio para integrar novas ferramentas no seu dia a dia.
O investimento é outro obstáculo. Para uma microempresa, contratar um profissional, criar um website ou adquirir software representa um custo que tem de ser ponderado. Mesmo quando a solução é acessível, é necessário perceber quanto tempo exige, que benefícios pode trazer e se a empresa tem capacidade para a manter.
Há ainda uma questão menos visível: a organização. Uma empresa que não tem processos claros pode acabar por digitalizar a desorganização que já existe. Antes de escolher uma ferramenta, convém perceber onde se perde tempo, que informação precisa de ser controlada e que tarefas podem ser simplificadas.
Para um negócio, a transformação digital pode começar com uma solução modesta. Organizar os contactos dos clientes, criar um e-mail profissional ou disponibilizar informação atualizada sobre os serviços já pode fazer diferença. O passo seguinte dependerá da atividade e dos resultados alcançados.
A oportunidade pode estar nos serviços digitais
A transformação digital não representa apenas uma necessidade para as empresas tradicionais. Pode também abrir espaço para novos negócios.
O diagnóstico do Banco Mundial e da IFC identifica potencial para o desenvolvimento de serviços digitais em Cabo Verde, tanto para o turismo como para outros setores, incluindo a indústria transformadora, a pesca e as energias renováveis.
Desenvolvimento de websites, comércio eletrónico, marketing digital, manutenção informática, cibersegurança e gestão de dados são áreas onde empresas locais podem prestar serviços. O mercado não precisa de se limitar ao arquipélago. Uma equipa com competências e capacidade de entrega pode procurar clientes internacionais e trabalhar à distância.
A diáspora cabo-verdiana é também uma possibilidade a considerar. Pode representar um mercado para produtos, serviços e experiências locais, bem como uma ligação a redes empresariais no estrangeiro. Mas transformar essa proximidade numa oportunidade comercial exige canais de venda, pagamentos adequados e uma oferta capaz de responder às expectativas dos clientes.
A formação tecnológica, por si só, não cria empresas sustentáveis. É necessário que os profissionais encontrem condições para desenvolver soluções, conquistar clientes e manter atividade económica no país.
O que falta saber sobre a preparação das PME?
Cabo Verde está a investir na transformação digital. As estratégias públicas, os programas de formação e os diagnósticos setoriais mostram que o tema faz parte da agenda de desenvolvimento. Mas ainda há perguntas sem resposta suficiente.
Quantas PME passaram a vender online? Que ferramentas utilizam para gerir a atividade? Quantas conseguem aceitar pagamentos digitais? Existem diferenças significativas entre as ilhas? E que resultados concretos tiveram os programas de apoio às empresas?
Os dados aqui analisados não permitem responder a estas perguntas de forma abrangente. Os indicadores da UNESCO dizem respeito à população e à utilização da Internet; os números do Banco Mundial e da IFC sobre plataformas e reservas referem-se a empresas turísticas analisadas. Não constituem um levantamento recente de todas as PME cabo-verdianas.
Para compreender melhor a preparação das empresas, será necessário cruzar estes diagnósticos com dados mais recentes e ouvir empresários de diferentes setores e ilhas.
A transformação digital de Cabo Verde não será medida apenas pela expansão das redes ou pelo número de serviços públicos disponíveis online. Também importa saber se uma pequena empresa consegue chegar a novos clientes, organizar melhor a gestão e competir.
Para algumas, o próximo passo será criar um website. Para outras, melhorar a segurança, aceitar pagamentos digitais ou aprender a utilizar ferramentas de gestão. O ponto de partida não é igual para todos.
A questão, portanto, não é apenas se as PME estão preparadas para ser digitais. É também saber se existem condições para que possam preparar-se, com acesso, competências, investimento e soluções ajustadas à realidade de cada negócio.